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Ondas ou tsunamis: os efeitos econômicos da pandemia

​Por Carlos A. Primo Braga

O Ministério da Economia divulgou recentemente um vídeo com o Ministro Paulo Guedes (www.cbic.org.br; vídeo de 29/03) no qual o Ministro, de forma didática, descreve os impactos da pandemia do Covid-19. O Ministro usa como metáfora a imagem de duas ondas que avançam sobre o Brasil. A primeira onda está associada ao impacto da pandemia sobre a saúde dos brasileiros. A segunda onda reflete o impacto econômico das medidas de distanciamento social que vêm sendo implementadas, com diferentes ênfases, nos estados e municípios do país. O Ministro também apresenta um sumário das várias medidas que as autoridades econômicas estão implementando para minorar os efeitos econômicos da crise. As mensagens centrais do vídeo são: a preservação da saúde da população é prioritária e, por conseguinte, as medidas de distanciamento social precisam ser respeitadas, mas é também importante evitar a desorganização do sistema produtivo. Esse é o dilema que sociedades ao redor do mundo estão enfrentando neste momento.

A metáfora utilizada, porém, não captura plenamente a realidade do desafio enfrentado. A imagem mais apropriada para o momento atual é que o Brasil e o mundo serão impactados por uma série de “ondas” cuja magnitude e frequência ainda são indeterminadas. Experiências passadas com pandemias são referências úteis. No caso da Gripe Espanhola, por exemplo, ao invés de uma “onda” de infecção, a pandemia incluiu pelo menos três surtos entre o início de 1918 e 1920, com o período entre setembro de 1918 e janeiro de 1919 concentrando o maior número de mortes. Ao final desses surtos, estima-se que mais de 500 milhões de pessoas tinham sido infectadas pela influenza e o número de mortos provavelmente foi superior a 40 milhões de pessoas. O impacto econômico dessa pandemia foi também dramático e existem estimativas que a Gripe Espanhola gerou uma queda de renda per capita da ordem de 6% nos países mais afetados.

Evidentemente os tempos são outros e a taxa de mortalidade (número de mortes/população), uma métrica distinta da taxa de fatalidade (número de mortes/número de pessoas infectadas), certamente será bem inferior aos 2% observados um século atrás. Ainda assim, cabe observar que o Covid-19 já se posiciona entre as 10 pandemias mais dramáticas dos últimos 100 anos em termos de número de fatalidades.

Como observei em um artigo recente (“Mercados em tempo de pandemia”, Valor Econômico, 23/03), “governos ao redor do mundo reconhecem que suas economias terão de ser colocadas em uma espécie de “coma” temporário com base em quarentenas, restrições a movimento de pessoas e práticas de distanciamento social para facilitar o controle da pandemia.” Isso tem custos econômicos significativos, mas ignorar a necessidade de distanciamento social pode provocar o colapso de sistemas hospitalares e um aumento significativo de fatalidades.

Aqueles que sugerem estratégias de mitigação para minorar os efeitos econômicos da pandemia, argumentam que medidas moderadas de distanciamento social, isolamento de casos suspeitos e quarentena no domicílio para pessoas infectadas, seriam suficientes para diminuir o pico de demanda por serviços de saúde. Tal estratégia é geralmente complementada por argumentos a favor de “herd immunity” (imunidade de rebanho), qual seja: é melhor deixar o vírus se espalhar, pois quando cerca de 66% da população estiver infectada, essas pessoas estarão, em tese, imunes à doença e a pandemia perderá o seu dinamismo. Cabe mencionar que não existe um consenso sobre os níveis de infecção necessários para se alcançar imunidade de rebanho. Alguns países (por exemplo, o Reino Unido e a Suécia) adotaram implicitamente essa estratégia na fase inicial do contágio, mas já reverteram suas políticas no sentido de uma estratégia de supressão, baseada em regras mais severas de distanciamento social.

A questão óbvia é por quanto tempo uma sociedade pode implementar medidas draconianas de quarentena sem gerar uma explosão social em virtude da queda de atividade econômica e do aumento de desemprego. A maioria das análises que avaliam o custo-benefício da implementação de medidas de distanciamento social apoiam a adoção de medidas rigorosas na ausência de vacinas e/ou medicamentos eficazes. Mas tudo depende da duração do episódio e da taxa de desconto utilizada para comparar benefícios futuros com custos presentes. É também importante reconhecer que em países, como o Brasil, onde o mercado de trabalho é caracterizado por altos níveis de informalidade, a implementação e a sustentabilidade de regras de distanciamento social enfrentam dificuldades adicionais.

A crise vem também contribuindo para a proliferação de análises sobre como será a retomada de crescimento pós-pandemia. Essas análises são tipicamente apresentadas no contexto de diferentes trajetórias de recuperação. No caso de uma recuperação em V, a hipótese é que o choque simplesmente adia o consumo e, uma vez que o surto seja controlado, ocorrerá uma recuperação rápida de demanda (promovendo um overshooting de crescimento), de forma que a economia voltaria a crescer à taxa de crescimento pré-crise e o nível do PIB seria afetado apenas temporariamente. Essa é a narrativa adotada, por exemplo, por Donald Trump. Experiências passadas com pandemias virais (e.g., SARS) e choques naturais (e.g., terremotos) tipicamente seguiram essa trajetória.

Uma trajetória em U, por sua vez, sugere uma recuperação mais lenta. Nesse cenário, o choque poderia gerar uma queda no nível do PIB, mas a expectativa é de que a taxa de crescimento retornaria a sua tendência histórica uma vez que o choque tenha sido superado. Já uma trajetória em L significaria que, após a superação da crise, o PIB não apenas estaria em um nível inferior à situação pré-crise, mas também passaria a crescer a taxas inferiores à tendência histórica, em virtude de impactos negativos na produtividade da economia.

Uma visão alternativa é a de que muitas economias observarão uma trajetória em W com períodos de recuperação seguidos pela imposição de novas regras de distanciamento social em virtude do impacto de surtos adicionais. Alguns países (e.g., Cingapura) que haviam sido elogiados pela capacidade de “administrar” a pandemia de forma eficiente, sem a implementação de medidas radicais de isolamento social, estão agora enfrentando uma aceleração de casos de Covid-19 e tendo que reavaliar as suas estratégias. Mas independentemente da evolução da pandemia, o ciclo econômico também deve trazer novas surpresas na medida em que o estresse financeiro causado por medidas de saúde pública pode fazer com que uma crise de liquidez se transforme em uma crise de solvência de empresas e países.

Países industrializados estão adotando planos fiscais de estímulo econômico em média da ordem de 6% do PIB — no caso do Brasil estimativas de suporte fiscal variam entre 3,2% do PIB (BACEN), início de abril, e 6,5% (FMI) no final de abril — e tais medidas, em combinação com a expansão de liquidez adotada por Bancos Centrais, podem evitar uma crise financeira mais generalizada. Mesmo assim, o FMI estima que a economia mundial observará uma contração da ordem de 3% em 2020 – com o PIB brasileiro sofrendo uma contração de 5,2%. A realidade é que estamos ainda na fase inicial desse “jogo” e é importante reconhecer que outras ondas, associadas com novos surtos e/ou com as implicações financeiras da crise, estão por vir. Afinal de contas, as reverberações da pandemia com relação às operações das cadeias globais de produção, comércio internacional, decisões de investimento e o comportamento de consumidores, em particular no setor de serviços, sugerem que a recuperação econômica não ocorrerá rapidamente. Resta torcer para que as novas ondas não se transformem em tsunamis, em virtude do impacto de choques políticos como os que estão ocorrendo nesse momento no Brasil.​

Publicado originalmente no site da Fundação Dom Cabral.

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