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Qual é a importância do CEO na Governança Sustentável?

Por Heiko Spitzeck – professor e diretor do Núcleo de Sustentabilidade da FDC

Eu defino ‘Governança’ da forma mais clássica possível: governança é o sistema com o qual empresas estão sendo supervisionadas e controladas. Tradicionalmente, tivemos esses controles de maneira financeira. Hoje, como entram questões de ESG (Environmental, Social & Governance na sigla em inglês) como mudanças climáticas, desmatamento, diversidade, esses temas precisam ser integrados ao sistema com o qual a empresa está sendo supervisionada e controlada.

E logo de cara, gostaria de esclarecer que o CEO tem um papel fundamental para trazer os temas de sustentabilidade e de ESG no conselho de administração (CAD) e explicar o que pode/deve ser feito por ele (ele, o CEO).

Já passamos da hora de ‘não-discutir’ sustentabilidade no Conselho. E vou além: não é só abordar o tema. É necessário que esta conversa aconteça de forma estruturada em duas frentes:

Uma intrínseca: acionistas e executivos colocando propósito e impacto socioambiental na pauta porque querem deixar um legado na sociedade. Um exemplo disso é a iniciativa CEO Legacy da Fundação Dom Cabral. Outro é o movimento das empresas B que colocam o impacto social no estatuto da corporação.

A outra é extrínseca: por pressão externa. Vemos que, hoje, a discussão sobre riscos ESG está aquecida nos investidores, liderada bastante pela BlackRock e pelas cartas de seu CEO Larry Fink. Quem exporta para mercados internacionais mais exigentes também está se acostumando com a discussão ESG.

Então, quem não sabe colocar os assuntos sobre ESG no Conselho de uma forma estruturada e relevante para o negócio, vai confrontar desvantagens no financiamento e no relacionamento com stakeholders.

E quem influencia isso?

Tem vários grupos influentes na governança. Os acionistas, os conselheiros e o CEO. Mas quero e vou focar no CEO. Hoje, sei de CEOs que levam a conversa de ESG ao Conselho – seja junto com o CFO por causa de relações com os mercados financeiros, seja por riscos socioambientais da operação, seja por riscos reputacionais ou seja por valores próprios do CEO.

O estudo da Russell Reynolds juntos com Pacto Global, que analisou CEO’s das Fortune 500 avançados na questão socioambiental, mostra que há três perfis dos líderes engajados: 45% são born believers, 43% foram convencidos da relevância de ESG ao longo das suas carreiras e 12% foram despertados/acordados por experiências-chave.

O estudo identifica o que eles chamam de um “mindset sustentável”, que tenta incluir stakeholders, fomentar a inovação disruptiva, pensamento de longo-prazo e no ecossistema de negócios. CEOs com esse mindset têm várias formas de colocar a sustentabilidade na governança:

Primeiro, identificar os temas sociais e ambientais que mais impactam o negócio e assumir um compromisso público de endereçá-los, além de alinhar as metas com os incentivos dos executivos. Alinhado a isso, é necessário investir fortemente na capacitação da equipe de sustentabilidade corporativa, para cada um entender seu papel e indicadores-chave e desempenho.

Segundo, usar os indicadores e o desempenho socioambiental para elaborar estratégias onde a sustentabilidade é um driver de valor e um critério de diferenciação frente aos concorrentes.

Os públicos-alvo da organização precisam enxergar a sustentabilidade no core do negócio, que é na oferta de produtos e serviços da organização.

O grande desafio é criar uma cultura de conversa que integre temas socioambientais no CAD de duas perspectivas: de riscos e de oportunidades.

O CAD precisa avaliar riscos socioambientais nas decisões – sobretudo as decisões de investimento; como fala Fábio Barbosa: “os passivos ambientais que você tem no balanço hoje são de ações que a empresa tomou uns 10 anos atrás. Assim, as suas decisões hoje vão ser avaliadas com os valores da sociedade daqui a 10 anos”. 

O outro eixo é oportunidade. Sustentabilidade está diretamente ligada à agenda de inovação e na revisão do portfólio de produtos e serviços que a empresa oferece.

Mas bons exemplos não faltam.

Existem várias empresas com um comitê de sustentabilidade ligado diretamente ao Conselho de Administração. Alguns dos entrevistados em nossas pesquisas são membros desses comitês em empresas como Santander, Vale, Duratex etc.

A Fibria conseguiu melhorar seu relacionamento com comunidades indígenas tendo um representante no comitê de sustentabilidade da empresa; a Nike estabeleceu um comitê de sustentabilidade após críticas de trabalho infantil já nos anos 90; o Grupo Baumgart estabeleceu um comitê de sustentabilidade que olha também para inovação, dentre outros exemplos.

Quais ainda são os obstáculos?

O risco é criar uma estratégia de sustentabilidade em vez de criar uma estratégia sustentável. ESG e sustentabilidade não é algo separado do negócio – é e que você faz no dia-a-dia da sua empresa!

Outro problema é o foco exclusivo em indicadores financeiros. Obviamente eles são importantes, mas vão ser complementados por indicadores sociais e ambientais, da mesma forma que o  próprio critério de sucesso está mudando. Muitas empresas mudaram sua concepção de sucesso durante a pandemia que é: manter a saúde do ecossistema de negócios, incluindo um olhar mais apurado para colaboradores, clientes e fornecedores.

O último obstáculo que vejo é que pessoas podem pensar que tudo isso que falamos no decorrer do artigo é somente uma onda que vai passar depois da pandemia, como, por exemplo, o mercado financeiro mudando as regras internacionalmente com bancos pressionado o Brasil a cuidar melhor do desmatamento. Eu acredito que é muito mais que uma onda e certamente não vai passar.

Ok, Heiko. Então o que fazer?

Primeiro, os líderes precisam identificar quais temas ESG são mais relevantes para seu negócio.

Segundo, avaliar a maturidade da gestão em tratar dos temas prioritários.

Terceiro, desenhar um plano de ação que ajude a melhorar o desempenho socioambiental da empresa que ajuda a reduzir riscos e custos, e capturar oportunidades.

Por fim, governança é chave para a longevidade da sua empresa, se a pandemia não fez você ver isso, não sei o que faria.

Publicado originalmente no blog da Fundação Dom Cabral.

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