O Conhecimento dirige a prática, no entanto a prática aumenta o conhecimento (Thomas Fuller)
Compartilhar conhecimento prático está em nossa essência

Acudir o presente e reconstruir o futuro

Por Humberto Falcão Martins – professor da FDC

O fim do mundo é uma ideia que aterroriza a humanidade desde tempos imemoriais. Habita a literatura e o imaginário das pessoas de múltiplas formas e carrega muitos significados. Um deles é a ruptura, a transformação súbita e radical.

O mundo como nós conhecíamos até há uns meses atrás acabou. Esta crise desencadeada pelo COVID-19 fará surgir um novo mundo. Não só o mundo não será o mesmo. Nós não seremos mais os mesmos.

É claro que o mundo sempre foi um composto em mutação. Mas esta mudança com a qual nos deparamos talvez seja sem precedentes na história moderna. Como toda mudança complexa, esta mudança afetará profundamente a economia, a política, a tecnologia, a cultura, a vida privada e a experiência interior das pessoas em múltiplas escalas, da local à global.

Para se ter uma ideia do potencial de transformação, listo algumas possibilidades que vem sendo debatidas.

É bastante provável que as instituições públicas voltem ao centro das atenções. Crises como esta são grandes vetores de percepção sobre problemas públicos, cujo trato não depende apenas de governos, mas de toda a sociedade. Velhos e novos papeis se mesclarão. Provavelmente teremos que expandir nossos conceitos de agentes e políticas públicas. Certamente daremos mais valor aos fatos e evidências, e suas implicações globais, nos processos de escolha pública, como requisitos de confiança nas instituições. Hierarquias e redes serão cada vez mais imbricadas e complementares.

É bastante provável que o choque de virtualização a que estamos sendo submetidos altere definitivamente o processo de deliberação coletiva, profissões, organizações, serviços, políticas públicas e relações sociais e familiares. A radicalização da transformação digital deverá afetar uma abrangente proporção das cadeias produtivas e da indústria cultural, colocando em relevo princípios tais como redundância, contingência e flexibilidade. Também aprofundará a emergência de novos hábitos de consumo e formas de distribuição.

É bastante provável que tudo isto também promova transformações relevantes na organização dos espaços coletivos, a partir de novos hábitos de saúde, de fatores ambientais, do uso múltiplo de equipamentos públicos, nos transportes etc. Os hubs de presença e movimentação física de pessoas também passarão pela disseminação de mecanismos de controle por meio de câmeras inteligentes e outros mecanismos de monitoramento.

Na vida privada, as mudanças serão muito contundentes. Afetarão as formas como as pessoas se relacionam dentro e fora dos círculos familiares. Novas formas de interação serão provavelmente portadoras de novas tessituras sociais, a partir de novas formas de solidariedade. Muita transformação nos hábitos de higiene e saúde, alimentação, lazer, cultura, entretenimento, condicionamento físico. Profundas mudanças na experiência interior para lidar com restrições, medos e ansiedades.

Todas estas possibilidades trazem muitos desafios. Lidar com a brutal crise econômica fruto da desaceleração, da desocupação, da desvalorização de ativos, do endividamento. Mitigar o provável aumento da desigualdade e os perigos da vigilância e do controle sobre indivíduos e grupos também são questões desafiadoras, dentre muitos outros.

Todas estas possibilidades devem ser interpretadas apenas como provocações para que pensemos o aqui e agora e o daqui há pouco.

A principal mensagem que queremos deixar é que temos, neste momento, dois grandes desafios: gerir a crise aqui e agora, impedindo que o pior aconteça; e criar o futuro de daqui há pouco, fazendo com que o melhor possível aconteça. É fundamental ter estas duas coisas em mente. Temos que superar a crise e criar o mundo que virá a partir dela.

Uma forma de fazer isto é melhorar as competências de gestão de crises de agentes públicos e privados. Isto inclui desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes de liderança; percepção e avaliação de risco; compreensão de contextos e gestão da atenção; mineração de evidências e diagnóstico; montagem e operação de comitês de crises; planejamento e execução de ações estruturadas; avaliação de responsabilização civil e administrativa; comunicação, comando e controle em ambientes de redes; gestão política e de políticas públicas; e gestão da pós-crise, dentre outros.

Acreditamos que é possível gerar um ganho destas competências de uma forma rápida em meio a iniciativas que já estejam em curso nas cidades, nos estados e no Governo Federal.

O grande resultado esperado é dotar os processos de gestão de crises de mais racionalidade e maior integração entre as perspectivas de curto e médio-longo prazos.

É preciso pensar o futuro em cada passo do presente, porque é o presente que nos leva ao futuro desejado.​

Artigo publicado originalmente no blog da Fundação Dom Cabral.

shares